• Início
  • Principal
  • Mundo
  • Brasil
  • Economia e Política
  • Cultura
  • Esporte
  • Ciência e Tech
  • Unasp
  • Região
  • Colunas
    • Category
    • Category
    • Category
    • Category
Você está em : Principal »
Mostrando postagens com marcador Capa. Mostrar todas as postagens
– Mais alto, papai. Mais alto

O sorriso do garoto parece derreter o coração do pai. O parque estava repleto de crianças e o som da feira um pouco distante.

– Tá, mas só até sua mãe chegar. Você sabe que ela não deixa você subir muito com o balanço.

Feira em Artur Nogueira reúne pessoas de toda a região.
Foto: Isadora Stentzler.
Aquele era mais um domingo de feira para a família. Porém, aquele dia tinha uma pitada especial: a casa teria a presença dos familiares da esposa. “Vixe, um dia inteiro com a sogra!”, pensava o marido. Preferiu ir com a roupa de sempre: um calção jeans com tênis branco, além da camiseta sem manga verde, deixando exposta a tatuagem no braço direito com o símbolo de uma águia. Já para o menino, a mãe fez questão de colocar a camiseta listrada pólo, com tons de laranja, branco e verde. Era a “estreia” do vestuário.

– Nada de sujar hein. Quero ver você bonitinho hoje.

9h30 da manhã. O carro do casal chega ao local da feira, na rua Duque de Caxias. Estacionamento lotado. Dirigem mais um pouco. Alcançam a vaga já nas redondezas do supermercado São Joaquim.
A lista de compras na mão da esposa está repleta de itens. Um quilo de tomate, quatro cebolas, duas dúzias de bananas e meio quilo de maçã, a fruta preferida de sua mãe.

– Vamos amor, não pode demorar muito. Ainda nem comecei a fazer o arroz.
A pressa parece não atingir o pai e o garoto. A cada passo a caminhada diminuía de ritmo, enquanto olhavam detalhadamente os primeiros quiosques da feira. Ao avistar a barraca do pastel, o menino não se conteve.

– Pasteeeeellll. Olha lá o pastel mãe. Por favor, compra. Compra. Compra. Compra!

– Filho, já falei. Temos que voltar logo para casa. Na próxima a gente pega.

Instantaneamente a expressão alegre do garoto se fechou. Quando já ameaçava um choro, seu pai segurou o seu braço e o confortou.

– Vamos lá filho, enquanto a mamãe compra as frutas ali eu levo você.

Imediatamente o menino abriu um sorriso e correu em direção à famosa barraca. O local, ponto de encontro tradicional da feira, estava cheio. As mesas espalhadas ao redor da via estavam lotadas. De famílias como a daquele garoto a casais de jovens recém-comprometidos. Um grupo de cavaleiros se reunia em um círculo, um pouco mais abaixo, no outro lado da praça. Todos com o pastel na mão. Sentado na sarjeta imediatamente ao lado da barraca está um senhor de idade, contando histórias da antiga Artur Nogueira para um grupo de três crianças e uma mãe.

– Pai, por que tem tanta gente aqui hoje?

– Aqui é sempre assim filho. Você não vem aqui todos os domingos, praticamente?

– Sim... mas hoje parece diferente.

Após cerca de três minutos na fila é a vez do pai e do garotinho.

– Moça, me veja dois pasteis de frango e um suco de laranja. Ah, e me vê dois canudinhos.

– Cinco reais. Vai querer ketchup?

– Sim, dois pacotinhos já servem.

Após entregar uma nota de dez e receber o troco, o pai puxa seu filho para um espaço vazio na calçada.

– Vamos sentar aqui filho.

– E a mamãe?

Neste instante, ele olha para o movimento da feira. “E agora, onde essa mulher tá meu pai?”, pensa. 

Preocupada com o almoço, a mãe lembra uma máquina programada para comprar. “Moço, quero esses dois cachos aqui madurinhos ó”, “quanto tá essa bandeja?”. Em cada barraca por onde passa, deixa notas de cinco e dez reais e risca sua lista. Agora faltam poucos itens.

– Ela está ali filho. Vamos.

O pastel foi devorado em questão de instantes. Logo eles alcançaram a mulher com a lista, em uma barraca cerca de dez metros à frente.

– Já comeram? Enquanto estavam aí já adiantei as compras. Gastaram quanto?

– Cinco reais. Ainda tem um resto aqui.

Enquanto caminhavam o telefone da mulher tocou. “Alô”, “bença pai”, “sim, já estamos nos preparando aqui”, “que horas vocês chegam?”. Era o que faltava. A agitação anterior ficou ainda maior.

– Amor, meu pai acabou de ligar. Estão chegando em pouco mais de uma hora. Só faltam os legumes. 

Vamos lá pro final da feira que a gente pega mais barato.

– Ah meu pai, você sempre fica assim nessa correria quando seus pais tão aqui

– Ah é? E quando sua família vem fazer churrasco lá em casa? Você não fica agitado?

Parecia começo de discussão, até o garoto interromper o diálogo.

– Olha lá a sorveteria. Por favor, mãe, compra um sorvete para mim. Só um, prometo que é só esse. Vai, por favor.

– Peça pro seu pai, filho. Não é ele que tem todo o tempo do mundo?

A ironia é rebatida pelo pai com um olhar fechado. Ele segura firme nas mãos do filho e o leva para a sorveteria sem responder a questão. “Enquanto vocês vão aí eu vou comprar os legumes”, falou a mãe enquanto já acelerava o passo em direção às barracas, quase na avenida XV de Novembro.

O movimento na feira parecia crescer. Um conjunto de barracas azuis, logo em frente à sorveteria, atraía a atenção de quase todos que por ali passavam. Desde camisetas de times de futebol até brinquedos, passando por acessórios de cozinha e bijuterias. Ali do lado, um rapaz fechava negócio por dois relógios e em uma pequena banca laranja à frente uma senhora demonstrava interesse por um conjunto de toalhas de mesa.

– Me vê dois sorvetes casquinhas com cobertura, por favor?

– Qual o sabor moço?

– Maracujá e chocolate. Os dois com cobertura de chocolate.

Mais cinco reais saem do bolso do pai. O menino pede para sentar-se à mesa ao lado da recepção, porém o pai opta por dois assentos localizados na parte externa do estabelecimento, na descida da Farmácia do Carlinhos.

Após uma noite fria de sábado, o sol aparece sem qualquer nuvem no céu nogueirense. Feirantes e visitantes de sandálias e bermudas e o parquinho cheio de crianças. Sim, o parquinho. Bem em frente à sorveteria. Logo aquela sorveteria.

– Pai, vamos lá para o parquinho.

– Mas filho, nem terminamos o sorvete.

– Vamos pai, do lado do balanço tem um banquinho. A gente senta lá e depois você me empurra.

A animação do garoto venceu. Desta vez, era o menino que puxava o pai até o local em meio ao movimento da feira. O sorvete ainda estava na metade.

“Peguei”, “agora é você”. O barulho deixava a criança ansiosa. Enquanto o pai era só sorrisos. Parecia se colocar ali, querer voltar a infância. Por alguns instantes se esqueceu de que tinha um sorvete em suas mãos.

– Papai, tá pingando em sua mão.

– Putz, nem reparei. E agora? Fica aqui no balanço que eu vou pegar um pano ali e já volto.

– Tá.

Timidamente, a criança senta em um dos três bancos do balanço. Segura nas grades de ferro que sustentam a estrutura e projeta seu corpo para a frente e para trás. Um pedaço do sorvete cai sobre sua camiseta. Ele nem repara.

A demora para limpar as mãos fez com que perdesse o começo da brincadeira do filho. Quando retornou ao parquinho, o pai encontrou o filho correndo atrás de outras crianças ao redor do escorregador. Decidiu comprar uma cerveja na barraca ao lado e assistir a cena de “camarote”.

– Vai filho, desce. Papai tá aqui olhando.

– Saca só essa aqui.

Após cerca de quinze minutos, o filho correu em direção ao balanço e convidou o pai.

– Vem pai, me empurra.

– Tá, vai lá.

A cena lembra o filme “À Procura pela Felicidade”. Naquele instante somente pai e filho pareciam existir em meio às centenas de pessoas circulando apressadas na estreita via da feira. O barulho de feirantes citando itens e preços para atrair os consumidores tinha ficado para trás. A cada empurrada no balanço, o pai parecia se esquecer de alguma preocupação ou problema. Cada um era exterminado naqueles segundos. A criança olhava fixamente para o pai e segurava forte na grade.

– Mais alto, papai. Mais alto.

– Tá, mas só até sua mãe chegar. Você sabe que ela não deixa você subir muito com o balanço.

Enquanto ainda recitava a última sílaba da palavra balanço. Sua esposa apareceu com mais duas sacolas. A feira estava completa.

– Pronto, terminei. Agora vamos que meus pais tão chegando. Pera aí, que mancha é essa aí na sua calça?

O rosto moreno do pai ficou pálido. “Xi, a camiseta nova do moleque”, pensava. O olhar da mãe já dizia tudo. “A gente se acerta em casa”.
Enquanto caminhavam para o carro uma última parada. Desta vez, o filho avistou uma camiseta do 

Corinthians pendurada em uma imensa barraca de toldo azul pouco depois do parque.

– Olha papai, a camisa do Corinthians.

– É filhão. O Timão. E como se canta a música?

– Aqui tem um bando de louco. Louco por ti, Corinthians.

– Tá ótimo filho, quer uma para você?

– Quero.

Apesar da pressa, a mãe resolve não interferir desta vez. Apenas observa o pai comprando uma camiseta infantil do clube para o filho. Ela esboça um sorriso. No fundo, se orgulha do amor e do carinho do pai pela criança. Pouco depois alcançam o automóvel, já fora da área da feira. Os alimentos e objetos comprados seguem para o porta-malas. A mãe pega o celular e telefone para seus pais. O pai liga o motor do carro e começa a dar a ré. Já o filho encosta o rosto no vidro de trás e observa, com alguma dificuldade, o movimento de pessoas entre as barracas, a barraca do pastel, ainda lotada de gente, e o parque – o palco da diversão daquele domingo.

– Papai, semana que vem você promete me trazer na feira?


– Sim, filho. Eu prometo.

Por Guilherme Cavalcante
Fazer o Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) não é uma tarefa das mais fáceis mesmo quando se tem um vasto conteúdo a ser estudado. Agora, mergulhar em um tema do qual não existem bibliografias específicas para o assunto escolhido, pede um pouco mais de responsabilidade. Essa foi a vontade dos alunos Bruno Younes e Érika Preissel, formandos do curso de licenciatura em História do Centro Universitário Adventista de São Paulo (Unasp), campus de Engenheiro Coelho. Eles tiveram embasamento bibliográfico, mas resolveram dar uma abordagem diferenciada ao tema. Os dois se aventuraram em um assunto pouco difundido por escritores e escolheram a pauta “Catolicismo Negro no Brasil colonial” para encerrarem a graduação.

Santos negros foram criados para atrair escravos ao
catolicismo. Foto: Arquivo pessoal.
A disciplina “Brasil Colonial” foi o incentivo para o aprofundamento do tema. A partir de então, os alunos buscaram referências e especificaram o assunto com o objetivo de se aprofundar na questão da participação do negro na religião. A Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, em Mariana, Minas Gerais, foi o foco do estudo. Os brancos queriam que os negros, à época escravos, se sentissem como parte da sociedade, mas sem perder a cultura, e, por isso, utilizavam de alguns métodos para atraí-los.  Para isso, alguns santos negros foram criados para incentivá-los na participação da religião e, com o fervor demonstrado, os brancos também se interessaram pelo catolicismo.

O estudo levou 14 meses para ser concluído. O fato de não encontrarem a bibliografia específica para o tema deixou os alunos com receio, mas a visita à cidade de Mariana conseguiu esclarecer dúvidas e dar a certeza de que estavam tendo a abordagem correta.
Mestre em Memória Social e Patrimônio Cultural, a orientadora do TCC, Janaina Xavier, instruiu os dois alunos no aprofundamento do assunto. Ela afirma que a pesquisa fez uma contribuição para a revisão da história do negro no Brasil. “A pesquisa realizada traz uma temática atual, pertinente e que colabora para uma nova historiografia brasileira, mais inclusiva e de acordo com a realidade, dando voz para os diferentes atores dessa história, sem privilegiar nenhum grupo em específico”, valoriza Janaina.

Na apresentação do trabalho final, a banca, formada por professores do curso, elogiou o estudo, a forma como foi escrito e o embasamento dado. Pela sugestão dos avaliadores, o material será publicado pela Imprensa Universitária adventista (Unaspress).
Por Karine Dias
Jovens de Vila Olímpia (SP), na maioria universitários, criaram um projeto que tem intrigado e ajudado muitas pessoas que passam diariamente pela avenida Paulista no centro da cidade. Chamado de "A gente cuida", e com slogan "porque Ele fez a gente cuida", o projeto tem como objetivo “cuidar e amar” as pessoas da capital paulista, mostrando a importância de tratar a todos com carinho.
Jovem na avenida Paulista ergue cartaz convidativo para
 ouvir pessoas. Foto: Arquivo pessoal.
As ações desenvolvidas pelos jovens são várias: ajuda às pessoas necessitadas, distribuição de água na porta de baladas com informativo sobre a importância da mesma e etc. Eles pretendem estender a iniciativa pela América Latina e, em breve, na região de Campinas.
Dentre as atividades, o projeto "Desabafe", especificamente, surgiu no coração de uma das jovens do grupo que tinha o interesse de "experimentar" a ajuda humanitária sem pensar em receber nada em troca. “Foi uma ideia meio maluca a princípio, mas quando fomos colocar na prática vimos que era algo de Deus”, conta a garota que não quis se identificar.
A ideia consiste em se sentar na avenida Paulista e convidar as pessoas, por meio de cartazes, a desabafarem. Durante a conversa, os jovens participantes do projeto querem apenas uma coisa: demonstrar real interesse pela necessidade de quem desabafa.  
Em geral, os participantes já conversaram com casais que estavam em crise, pessoas que se sentiam sozinhas, pessoas que apenas queriam contar uma novidade para alguém e homossexuais que se tornaram amigos do projeto. O grupo já fez três edições e conversaram diretamente com mais de 200 pessoas.
Um dos integrantes que está à frente da iniciativa compara o projeto com uma revolução. “Esse é nosso objetivo, uma revolução de amor em nossa cidade. Porque Deus nos amou, nós amamos os outros, e os outros amarão outros e assim por diante”, explica o estudante Junior Melito.
Algumas pessoas que perambulam pela Paulista, às vezes, não se aproximam por preconceito achando que é algo de caráter religioso, mas os jovens pontuam o contrário. “Com isso fazemos amizade e envolvemos essas pessoas para que elas ajudem os outros também, só divulgamos o exemplo de Cristo, e até ateus viram em nós um Jesus que eles não conheciam”, esclarece o voluntário Victor Bejota.
Por Vinícius Serain
A Viação Bonavita (VB) Transportes, é uma tradicional companhia de viagens da região de Campinas e São Paulo. Atuam no setor em linhas rodoviárias, urbanas e suburbanas. Mesmo contando com aproximadamente 3,6 mil veículos espalhados pelas regiões de Campinas, Indaiatuba, Registro, Peruíbe, entre outras, vêm decepcionando moradores da região, tanto com falta de ônibus, quanto com falta de infraestrutura.

Superlotação é um dos problemas da VB.
Foto: Vinícius Serain
.
O principal problema diagnosticado pelos passageiros é em função da falta de carros em horários não convencionais (fora do horário de pico), entre às 14h e às 17h.  Principalmente para quem volta de Campinas para cidades vizinhas como Cosmópolis e Artur Nogueira.

Muitas empregadas domésticas precisam do transporte público justamente neste horário, e têm uma longa espera para voltarem às casas. “Temos dois lares pra cuidar: o nosso e dos patrões”, desabafa a empregada doméstica Inês Serrano. ”Esperar mais de uma hora pela condução já é triste, ainda mais com ar condicionado quebrado, ou com buracos que permitem entrada de chuva!”

As reclamações quanto a infraestrutura também são extensas. “O transporte Bonavita  está um caos! Ônibus quebrados, motoristas mal educados, atrasos constantes e até mudança de rota.” A denúncia é de uma internauta que fez sua reclamação no Fala Cidadão do portal Quanta Notícia.

Outra senhora que não quis se identificar, se manifesta constantemente no número telefônico fornecido pela empresa para reclamações. Cansada de tanto descaso, também enviou fotos para vários canais de comunicação tiradas dos ônibus que fazem a linha 600 (Indaiatuba/Campinas) – motivo de tantas reclamações.

Em uma das imagens a usuária destaca a lixeira no interior do ônibus que, em uma das viagens,  caiu repentinamente quase atingindo um idoso que estava em pé no interior do veículo. “Não havia lugar para ele se sentar devido à superlotação. O problema é antigo, a passagem é cara e as autoridades locais precisam tomar providências urgentes!”

Fundada em 1927, a Viação Bonavita, também passou por denuncias de corrupção. Em 2011, houve uma paralisação de cerca de 800 trabalhadores da VB, totalizando 258 veículos parados. O protesto aconteceu devido à demissão de três cobradores que foram pegos em flagrante por um fiscal da Empresa Municipal de Desenvolvimento de Campinas (Emdec).
Os cobradores faziam o chamado “cabrito”: deixavam os usuários que já tinham pagado na parte da frente do ônibus sem passar pela catraca. O dinheiro recebido era guardado pelos próprios cobradores que não devolviam para o caixa.
Acidente
O recente acidente do dia 19 de setembro deixou 33 pessoas feridas em Campinas. Um motorista de ônibus da empresa VB, que teria sido fechado por um veículo de passeio, perdeu o controle e bateu contra um muro. Das vítimas, duas foram levadas em estado instável para o Hospital da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). O veículo estava superlotado.

As Empresas Metropolitanas de Transportes Urbanos (EMTU) são entidades criadas para gerir o planejamento e gerenciamento de transportes públicos. A Região Metropolitana de Campinas (RMC) - vertente da EMTU - tem sofrido veementes críticas através do código de defesa ao consumidor e até o momento tem se ausentado perante esses manifestos.

Por Vinícius Serain
Do lado esquerdo da Rua Minas Gerais, no município de Engenheiro Coelho (SP), mora Maria Nunes de Oliveira, vendedora de comida caseira. Aos 62 anos, lê e escreve com dificuldade, porém pela prática contínua de vendas em seu trabalho, já consegue realizar cálculos matemáticos simples.

Dona María é parte dos 27% de analfabetos funcionais
 existentes no país. Foto: Katherine Changanaqui.
 
Dona Maria, como é conhecida pelos vizinhos, estudou até a segunda série no programa de Educação para o Idoso, promovido pelo município. Orgulhosa, comenta que aprendeu a escrever seu nome e expressa o entusiasmo por voltar às aulas que haviam sido paralisadas, por falta de professores, há dois meses.

Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 20,3% da população tinha, há dois anos, uma história similar à de dona Maria. Entretanto, esse número aumentou no ano passado para 27%, de acordo com o Indicador de Analfabetismo Funcional (Inaf), divulgado pelo Instituto Paulo Montenegro e pela ONG Ação Educativa.

O indicador também revela que na Região Sudeste 20% da população é composta de analfabetos funcionais, sendo que 48% correspondem ao nível básico e somente 31% são alfabetos plenos.

Roberto Catelli, coordenador do Programa de Educação de Jovens e Adultos da ONG Ação Educativa, afirma que no mundo letrado de hoje é quase impossível falar de uma pessoa absolutamente analfabeta. Segundo o Inaf, alguém é considerado analfabeto funcional quando, apesar de saber ler e escrever frases simples, não possui as habilidades necessárias para satisfazer as demandas do seu dia a dia e se desenvolver pessoal e profissionalmente. “O conceito de analfabetismo mudou. Em 1958, analfabeto era um indivíduo que não conseguia ler ou escrever; hoje se adota o conceito de analfabetismo funcional”, afirma o Instituto Paulo Montenegro por meio de sua assessoria.

De acordo com a definição acima, para ser considerada analfabeta funcional, uma pessoa deve necessariamente haver cursado até a terceira série do ensino fundamental e ter entre 15 e 64 anos de idade, mas possuir habilidades de leitura, escrita e matemática apenas rudimentares. Trata-se de uma situação extremamente limitadora, pois essas habilidades são importantes para a vida de estudos e inclusão no mercado de trabalho.

Apesar da diminuição do índice de analfabetismo funcional absoluto nos últimos anos, a situação do país ainda é crítica. Só na América Latina existem 25 milhões de analfabetos, dos quais 13 milhões são brasileiros. O censo de 2010 aponta que existem 584 mil analfabetos absolutos em São Paulo. Catelli sublinha que desde o ano 2000 tem havido reduções visíveis nos níveis de analfabetismo. No entanto, ele acredita ser necessária a urgente criação de políticas educacionais e “estratégias inteligentes para reduzir de maneira acelerada um número que ainda é muito expressivo”.

Na Região Metropolitana de Campinas (RMC), o mapa de analfabetismo do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep) elaborado no ano 2003, revelou que 299,3 mil pessoas são analfabetas funcionais. O estudo revelou que, dentre as cidades que integram a região, o município que tinha o índice mais alto era Santo Antônio de Posse, com 29,3% de analfabetos funcionais e 11,4% analfabetos absolutos. Engenheiro Coelho possuía 27,9% funcionais e 12,1% absolutos. Artur Nogueira, 23,3% funcionais e 9,1% absolutos. Holambra, 22,6% funcionais e 8,1% absolutos.

Dez anos depois

“No passado eu tentei ir à escola, mas pelas dificuldades nos horários desisti. Hoje, 30 anos depois, aprendi a ler e escrever com o programa”, conta Maria Nunes (a mesma dona Maria do início desta reportagem). Ela declara que o projeto da prefeitura mudou a sua vida.

As estatísticas do IBGE do ano 2010, segundo a Pesquisa Nacional de Domicílios (Pnad), mostravam as seguintes porcentagens em relação ao analfabetismo absoluto na RMC: Santo Antônio de Posse, 6,45%; Engenheiro Coelho, 7,12%; Holambra, 4,51%, e Artur Nogueira, 4,59%. Segundo os resultados, a cidade com maior índice de analfabetismo absoluto era Engenheiro Coelho.

Frente os altos níveis de analfabetismo, nas 19 cidades da RMC, a secretaria de Educação do governo do Estado de São Paulo comprometeu-se a realizar diversos projetos para diminuir esses índices. Desde 2003, foram implementadas pelo Ministério de Educação diversas alternativas para eliminar o analfabetismo no Brasil, tais como o projeto Educação de Jovens e Adultos (EJA) e o Pacto Nacional de Alfabetização na Idade Certa, que inclui parcerias com faculdades privadas na preparação dos docentes como futuros alfabetizadores.

No ano de 2012, o Estado de São Paulo contava com 214,3 mil matriculados no EJA. Recentemente, o governo reduziu para 7 anos a idade em que a criança deve estar alfabetizada, meta a ser conferida na próxima prova do Sistema de Avaliação de Rendimento Escolar do Estado,  a qual será realizada nos dias 26 e 27 de novembro.

Alguns dos municípios da RMC que apresentaram alto índice na pesquisa de 2003 também aderiram aos projetos. É o caso de Engenheiro Coelho. A secretária de Educação, Cleide Aparecida de Oliveira, menciona que o município já participa dos projetos em busca de garantir alfabetização correta a crianças da 2ª série, jovens e adultos. “Estamos investindo no EJA para que os alunos que trabalham durante o dia tenham uma boa alimentação e horário flexível para que concluam seus estudos no horário noturno”, acrescenta.

A realidade de outras cidades, porém, ainda é confusa. A reportagem entrou em contato com as Secretarias de Educação de Holambra e Santo Antônio de Posse. De acordo com as informações, ambos os municípios ainda não elaboraram planos que façam uma avaliação do seu passado educacional com o objetivo de projetar alternativas de melhora para o futuro. A reportagem também entrou em contato com a prefeitura de Artur Nogueira, por meio de sua assessoria de imprensa, mas não obteve resposta.


Movimentos nacionais como o Todos pela Educação tentam combater a realidade do analfabetismo funcional com o objetivo de eliminar o problema até o ano 2022. No entanto, para instituições como a Ação Educativa, colaboradoras do Inaf, diminuir totalmente o analfabetismo é impossível por tratar-se de um problema social bastante amplo, que está relacionado à desigualdade e vai além de questões educacionais.

Por Katherine Changanaqui
A elevação do preço de imóveis em determinados bairros é uma tendência comum nas cidades brasileiras. Instalação de hospitais, shoppings, universidades e supermercados são os motivadores para que casas e apartamentos passem a valer mais. Um exemplo disso é o bairro Itaquera, na zona leste de São Paulo. No local está sendo construído uma das maiores arenas de futebol do Brasil para a Copa do Mundo Fifa 2014. Segundo moradores da área, um apartamento de dois quartos era vendido, antes do início das obras do estádio, por no máximo R$ 80 mil. Hoje, vendas na mesma localidade não são feitas por menos de R$ 200 mil. 

Imagem Creative Commons.
Especulação imobiliária é o nome dado à prática de se adquirir um imóvel em um determinado bairro com objetivo de vendê-lo, depois de um determinado tempo, com o preço mais elevado. Segundo o arquiteto Renato Saboya a especulação imobiliária se torna um grave problema para as cidades por gerar desarmonia no tecido urbano. “Os bairros mais ‘especulados’ se tornam mais urbanizados que os outros, fazendo com que a cidade tenha áreas bem estruturadas e outras sem nem saneamento básico”, afirma. “O próprio governo cai na tendência de cuidar mais dos bairros que tem intensa especulação imobiliária.”

No entanto, esse não é o caso do bairro Cidade Universitária, em Engenheiro Coelho. O local tem a maior especulação imobiliária do município por se localizar ao lado do único campus universitário da cidade, o Centro Universitário Adventista de São Paulo (Unasp). Todos os anos vários estudantes chegam ao bairro, e aos condomínios próximos a ele, à procura de residências para morar no período letivo. Com o passar dos anos, a fama de ser um bairro tranquilo e bem próximo ao Unasp chamou a atenção de especuladores imobiliários. 

De acordo com um aluno que mora no Universitário (como o bairro é comumente conhecido), o valor cobrado em um aluguel de uma kit net ou edícula não custa menos que R$ 400. O mesmo valor que um estudante de São Paulo paga por uma residência próxima à Universidade Mackenzie, a poucas quadras de uma estação do metrô, por exemplo. Preço com o qual é também é possível pagar, dividindo espaço com mais duas pessoas, um apartamento de dois quartos na rua Consolação – que fica no centro de São Paulo e próximo à avenida Paulista.

Segundo a estudante de jornalismo do Unasp Karine Dias, que mora no bairro Universitário e paga R$ 380 pelo aluguel, é muito difícil encontrar locais para morar que sejam abaixo desse preço. “O meu apartamento é o mais barato que tem por aqui. Mas os valores geralmente estão na faixa dos R$ 450”, comenta.

Os abusos nos preços não se restringem apenas ao bairro Universitário. Nos três condomínios que circundam o campus do Unasp, os abusos nos preços continuam. No condomínio mais antigo da cidade, o Lagoa Bonita, onde habita boa parte da classe alta de Engenheiro Coelho, só é possível morar em uma edícula quem desembolsa mensalmente algo em torno de R$ 400. O condomínio atrai alguns alunos pela proximidade com o Centro Universitário. 

Para o aluno Rodolfo Sousa, morar no Universitário é vantajoso, já que ele consegue pagar alimentação, internet e residência mobiliada com cerca de R$ 400.  No entanto, Sousa denuncia que o mesmo valor é cobrado no condomínio fechado, numa taxa que não garante as mesmas vantagens. “Parece que no Lagoa eles querem cobrar pelo status de morar lá dentro. Enquanto o que eu pago cobre quase todas as minhas despesas, lá é cobrado em torno de R$ 470 só com energia e água.” 

Por Douglas Pessoa
De uma infância pobre e sem perspectivas a uma vida de garra, fé, perseverança e sucesso. Essa é a história da professora aposentada Elza Oliveira. Nascida na cidade de Juruaia, Minas Gerais, a educadora e seus 11 irmãos passaram por dificuldades financeiras e se adaptaram desde muito cedo a ajudar os pais nos serviços do campo. Acostumada com as provações, a família nunca perdeu o brilho, a esperança, a união e os princípios religiosos.

Ela Oliveira. Foto: Karine Dias.
O pai, sempre confiante e motivador, encorajou Elza, que havia cursado até a 3º série do primário, a realizar o sonho de um dia ser uma professora. A jovem, de apenas 15 anos, acreditou no seu potencial e, com a ajuda do município, reativou duas escolas na zona rural e passou a dar aulas tanto para crianças quanto para adultos nos três turnos. Com a remuneração que recebia pelas aulas, a professora auxiliava integralmente a família.

Com vontade de crescer e concretizar o sonho, Elza deixou a família e foi concluir seus estudos em um internato cristão no Rio de Janeiro. Para custear as despesas do ensino, a jovem trabalhava em tempo integral na instituição, dava aulas e tirava tempo para estudar e ter as melhores notas da classe. Nas férias, ela saia com uma equipe de meninas para vender de porta em porta geléia real. Com o êxito das vendas, a mineira conseguiu, além de pagar seus estudos, enviar dinheiro aos pais e convidar a irmã para estudar na mesma escola.

Elza se formou em matemática. Casou com um professor de educação física e começaram a dar aulas no Rio de Janeiro e pelo interior de São Paulo. Quando se aposentaram, eles não tinham casa própria. Com um pequeno investimento, no ano 2000, a professora comprou um terreno na Cidade Universitária de Engenheiro Coelho. Na época, o local era quase que abandonado. Não havia luzes na rua, asfalto e a falta de água era constante. Com pensamento empreendedor, construiu, além da casa para morar, uma casa de aluguel. Com o dinheiro que recebia do inquilino, construiu outras casas, investiu em outros terrenos e não parou mais.


A professora participou ativamente do crescimento do bairro. Fez parte, durante anos, da administração do local através da associação de moradores e ainda contribui com as melhoras, mas não de maneira formal como antes. Mesmo com uma vida estável, a aposentada diz que não quer parar. Para ela, se envolver com as pessoas é que a faz se sentir útil. “Eu gosto de estar em contato com outros. Gosto de conversar e ir de um lado para o outro. Isso me faz feliz”, revela.

Por Karine Dias 
Estudo realizado pelo Instituto Paulo Montenegro e o Indicador de Analfabetismo Funcional (Inaf) para o ano 2013 revela que 30% da população de Campinas é analfabeta funcional. Os resultados foram expostos em evento da Federação das Entidades Assistenciais de Campinas (Feac) pela comemoração da 4ª Semana de Educação do Município no dia 5 de novembro.

Evento da Feac. Foto: Katherine Changanaquí. 
O evento faz parte do projeto Compromisso Campinas pela Educação. A pesquisa foi realizada com o objetivo de avaliar os níveis de alfabetização na cidade e as estratégias pedagógicas utilizadas nos últimos anos. O estudo teve 406 entrevistas domiciliares nos períodos de 3 a 16 de junho e 2 a 10 de setembro. Foram identificados também os hábitos de leitura, escrita e cálculo da população entre 15 e 64 anos.

Rose Rosendo, gerente de atendimento e planejamento do Ibope Inteligência acredita que a situação em Campinas é muito similar a do cenário nacional. No entanto, por ser uma cidade grande e de bom nível econômico na região Sudeste, os resultados não foram os ideais. “Campinas é uma cidade do interior, mas é uma cidade rica. Esperava-se que o desempenho da população fosse melhor”, admite.

A porcentagem de analfabetismo funcional foi produto da soma do percentual de 3% da população considerada totalmente analfabeta e 27% da população com alfabetismo rudimentar, ou seja, pessoas que conseguem ler textos simples e realizar operações básicas. Nas definições do Instituto Paulo Montenegro uma pessoa que não está funcionalmente alfabetizada pode ou não realizar atividades do cotidiano, como fazer um cálculo ou receber um troco, mas nem sempre consegue interpretar textos e números. Eles criam uma dependência de outras pessoas para realizar atividades do dia a dia, o que complica mais a situação.

Entre os principais problemas que afetam o sistema educativo da cidade estão a infraestrutura das escolas e a falta de preparação adequada dos professores como alfabetizadores. Maria Helena Guimarães Castro, especialista em avaliação educacional, explica que instalações adequadas para o ensino é um fator que influencia no processo de aprendizagem. “Temos projetos de educação e escolas, mas nossos alunos não estão interessados em aprender”, afirma.

A especialista e socióloga também manifesta a sua preocupação com a qualidade das pesquisas para detectar o nível de alfabetização. Ela enfatiza que o mercado de trabalho está cada dia mais exigente e que os testes para identificar se somos capazes de ler ou não, refletem com pouca clareza se os estudantes estão prontos para enfrentar o mundo profissional. Para ela, novas pesquisas e melhorias na qualidade dos cursos ofertados são urgentes e necessárias para preparar os estudantes frente às mudanças na educação.

Maria Inês Fini, consultora da Fundação Feac para o Compromisso Campinas pela Educação, concorda com Maria Helena. Ela afirma em evento da Feac que é possível perceber uma geração talentosa de jovens que estão sendo educados da maneira errada para se desenvolver na sociedade. Em consequência, o processo de alfabetização sofre um estagnamento do ensino médio ao superior. “Estudantes são enviados as universidade sem ter um nível de alfabetização e interpretação de dados adequado. Essa é uma situação crítica e preocupante”, desabafa.

Evento da  Feac. Foco: Katherine Changanaquí.
No encontro também foi apresentada uma análise dos estudantes inscritos no Exame Nacional de Ensino Médio (Enem) deste ano. O professor Dalton Francisco de Andrade e o pesquisador Adriano Ferreti Borgatto foram os autores do estudo. Uma das conclusões apresentadas é a de que o desempenho dos estudantes em Campinas é superior aos níveis estaduais  da região Sudeste. Segundo Dalton, estes dados nem sempre refletem a realidade dos estudantes em termos de desenvolvimento laboral no futuro.

Nas opiniões de Andrade, Maria Inês e os outros participantes do projeto Campinas Compromisso pela Educação a criação de novos testes para o análise dos estudantes e o maior investimento em educação é urgente. “Acreditamos que a infraestrutura e qualidade de ensino precisam ser as melhores. E deixamos de perceber que aquilo que é considerado ‘melhor’ é o necessário”, declara Andrade.

Nas conclusões do estudo, considerou-se a necessidade de impulsionar o processo de alfabetização em busca da formação de uma população apta para conseguir um emprego e uma sociedade democrática. “Uma pessoa que precisa de outra para enxergar e entender o mundo não tem livre escolha e isso não é democracia”, acrescenta Maria Inês.

Além do município

No ano 2003 o mapa do analfabetismo funcional do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais realizado na Região Metropolitana de Campinas (RMC) indicava que Campinas era o município com o menor índice de analfabetismo funcional (14,5%). Já Santo Antonio de Posse tinha o maior índice (29,3%). Outras cidades com alto nível eram Artur Nogueira (23,3%), Engenheiro Coelho (27,9%) e Holambra (22,6%).

Sete anos depois as estatísticas do IBGE do ano 2010, segundo a Pesquisa Nacional de Domicílios (PNAD), mostravam as seguintes porcentagens em relação ao analfabetismo absoluto na RMC: Santo Antônio de Posse, 6,45%; Engenheiro Coelho, 7,12%; Holambra, 4,51%, e Artur Nogueira, 4,59%.
Frente a esta realidade diversos programas criados pelos governos foram postos em prática. Projetos como Todos pela Educação estabeleceram objetivos para erradicar o analfabetismo até o ano 2022. Os municípios de RMC como Engenheiro Coelho e Campinas atualmente fazem parte destes processos.

No entanto os dados atuais expressam uma realidade diferente. Rose Rosendo, do Ibopw, assume que é impossível comparar os dados do passado com os atuais por se falar de contextos educacionais diferentes. No Brasil o nível de analfabetismo funcional é de 27%. Já em Campinas é de 30%. Para os especialistas da educação, a cidade de Campinas reflete a realidade nacional e, portanto, medidas para sanar este desafio educacional no país serão refletidas no nível de analfabetismo funcional da cidade.


Por Katherine Changanaquí
À direita da Avenida Consolação, na Amaral Gurgel, estão 20 gigantes de seis metros que tomaram o elevado Costa e Silva em outubro. Descoloridos, enfileirados e sérios.  Se trata da exposição Giganto, da fotógrafa gaúcha Raquel Brust, parte do Festival de Fotografia PhotoEspaña.br. A mostra conta com retratos de moradores do local e pretende criar interação entre obra e público.

Imagem da DJ Sandra Gabby na exposição Giganto.
Foto: Isadora Stentzler.
“Esse me é familiar”, comenta o comerciante Alan Janes, 63, apontando para a primeira fotografia da exposição abaixo do elevado. “Mas agora não lembro quem é. Se reparar mais a partir de hoje acho que o reconheço.”

No bar, ninguém sabia o paradeiro. No salão de beleza, também não.  A mulher de saia que visitava o local no sábado (26) tampouco. Para muitos dos moradores vizinhos do elevado Costa e Silva, também conhecido como Minhocão, aqueles retratos são mitos da região. Um fenômeno, porém, que não acontece com a mulher exposta na oitava pilastra.

“Se eu conheço ela? Conheço sim, é do teatro”, conta a moça da banca de revistas. A idosa de batom, blusa social listrada e séria é freguesa no “Buteco no Tigrão”. “Às vezes almoça, às vezes só toma café”, revela o atendente. O nome dessa giganto é Gabby. Sandra Gabby. Mas para os amigos do Minhocão, é a Gabby do teatro. Uma atriz e DJ de 88 anos que dá aulas de interpretação ao lado do elevado.
                   
“Sou a DJ mais velha do Brasil”, se orgulha.  O amigo Marcelo Mendes, 40, e proprietário do teatro Paiol, acrescenta: “Enquanto estou no quarto sono, ela está batendo perna por aí.” Gabby já tocou em bares da região do Bixiga, Frei Caneca e na Augusta, ficando cerca de sete horas mixando sons no aparelho de DJ. “Uma mulher muito animada. Bem diferente daquela séria que aparece na fotografia”, pontua Mendes.

A escolha pela carreira há três anos veio de duas maneiras. Uma pela decepção com o teatro atual e a outra por influência da irmã Thelma Lima, 83. “Eu nunca toquei em público”, conta a irmã. “Mas ela toca.”

Assista ensaio da DJ Sandra Gabby

Logo que o Giganto foi exposto, Mendes percebeu o retrato da DJ e identificou que havia cola em excesso na fotografia dando a impressão de baba. “Então peguei um pano e limpei”, descreve.  O cuidado com a imagem representa o carinho que ele e outros vizinhos sentem pela atriz.

Segundo a idealizadora do projeto, Raquel Brust, o processo de escolha dos fotografados foi um trabalho de campo. O encontro com Gabby, no entanto, foi acidental. “Estávamos procurando janelas para filmar o elevado e encontramos ela por indicação do zelador do prédio. Muito simpática, logo estávamos em sua casa ouvindo música”, relata.

Assim como a curiosa senhora de 88 anos, atriz, DJ, viúva e que nunca quis ter filhos, outras 19 histórias curiosas também permanecem expostas no elevado.  “A cidade é um local que ninguém encara o outro, evitamos os olhares”, explica Raquel. Mas agora no Minhocão, “os olhares são vigilantes, críticos, te enfrentam”, e apresentam “vidas singulares cheia de mistérios.”

O projeto Giganto ocupa todas as colunas de sustentação do Elevado Costa e Silva, no trecho da Avenida Amaral Gurgel, e algumas colunas do trecho da Avenida São João. Outras imagens do PhotoEspaña.br podem ser vistas de 23 de outubro a 25 de janeiro no Sesc Consolação.


Por Isadora Stentzler



Postagens mais antigas Página inicial
  • Últimas do ABJN
  • Comentários
Publicidade

Vídeo do dia

2010 Simplex Enews . All rights reserved.
Designed by SimplexDesign