– Mais alto, papai. Mais alto
O sorriso do garoto parece derreter o coração do pai. O
parque estava repleto de crianças e o som da feira um pouco distante.
– Tá, mas só até sua mãe chegar. Você sabe que ela não deixa
você subir
muito com o balanço.
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| Feira em Artur Nogueira reúne pessoas de toda a região. Foto: Isadora Stentzler. |
Aquele era mais um domingo de feira para a família. Porém,
aquele dia tinha uma pitada especial: a casa teria a presença dos familiares da
esposa. “Vixe, um dia inteiro com a sogra!”, pensava o marido. Preferiu ir com
a roupa de sempre: um calção jeans com tênis branco, além da camiseta sem manga
verde, deixando exposta a tatuagem no braço direito com o símbolo de uma águia.
Já para o menino, a mãe fez questão de colocar a camiseta listrada pólo, com
tons de laranja, branco e verde. Era a “estreia” do vestuário.
– Nada de sujar hein. Quero ver você bonitinho hoje.
9h30 da manhã. O carro do casal chega ao local da feira, na
rua Duque de Caxias. Estacionamento lotado. Dirigem mais um pouco. Alcançam a
vaga já nas redondezas do supermercado São Joaquim.
A lista de compras na mão da esposa está repleta de itens.
Um quilo de tomate, quatro cebolas, duas dúzias de bananas e meio quilo de maçã,
a fruta preferida de sua mãe.
– Vamos amor, não pode demorar muito. Ainda nem comecei a
fazer o arroz.
A pressa parece não atingir o pai e o garoto. A cada passo a
caminhada diminuía de ritmo, enquanto olhavam detalhadamente os primeiros
quiosques da feira. Ao avistar a barraca do pastel, o menino não se conteve.
– Pasteeeeellll. Olha lá o pastel mãe. Por favor, compra.
Compra. Compra. Compra!
– Filho, já falei. Temos que voltar logo para casa. Na
próxima a gente pega.
Instantaneamente a expressão alegre do garoto se fechou.
Quando já ameaçava um choro, seu pai segurou o seu braço e o confortou.
– Vamos lá filho, enquanto a mamãe compra as frutas ali eu
levo você.
Imediatamente o menino abriu um sorriso e correu em direção
à famosa barraca. O local, ponto de encontro tradicional da feira, estava
cheio. As mesas espalhadas ao redor da via estavam lotadas. De famílias como a
daquele garoto a casais de jovens recém-comprometidos. Um grupo de cavaleiros
se reunia em um círculo, um pouco mais abaixo, no outro lado da praça. Todos
com o pastel na mão. Sentado na sarjeta imediatamente ao lado da barraca está
um senhor de idade, contando histórias da antiga Artur Nogueira para um grupo
de três crianças e uma mãe.
– Pai, por que tem tanta gente aqui hoje?
– Aqui é sempre assim filho. Você não vem aqui todos os
domingos, praticamente?
– Sim... mas hoje parece diferente.
Após cerca de três minutos na fila é a vez do pai e do
garotinho.
– Moça, me veja dois pasteis de frango e um suco de laranja.
Ah, e me vê dois canudinhos.
– Cinco reais. Vai querer ketchup?
– Sim, dois pacotinhos já servem.
Após entregar uma nota de dez e receber o troco, o pai puxa
seu filho para um espaço vazio na calçada.
– Vamos sentar aqui filho.
– E a mamãe?
Neste instante, ele olha para o movimento da feira. “E
agora, onde essa mulher tá meu pai?”, pensa.
Preocupada com o almoço, a mãe lembra
uma máquina programada para comprar. “Moço, quero esses dois cachos aqui
madurinhos ó”, “quanto tá essa bandeja?”. Em cada barraca por onde passa, deixa
notas de cinco e dez reais e risca sua lista. Agora faltam poucos itens.
– Ela está ali filho. Vamos.
O pastel foi devorado em questão de instantes. Logo eles
alcançaram a mulher com a lista, em uma barraca cerca de dez metros à frente.
– Já comeram? Enquanto estavam aí já adiantei as compras.
Gastaram quanto?
– Cinco reais. Ainda tem um resto aqui.
Enquanto caminhavam o telefone da mulher tocou. “Alô”,
“bença pai”, “sim, já estamos nos preparando aqui”, “que horas vocês chegam?”.
Era o que faltava. A agitação anterior ficou ainda maior.
– Amor, meu pai acabou de ligar. Estão chegando em pouco
mais de uma hora. Só faltam os legumes.
Vamos lá pro final da feira que a gente
pega mais barato.
– Ah meu pai, você sempre fica assim nessa correria quando
seus pais tão aqui
– Ah é? E quando sua família vem fazer churrasco lá em casa?
Você não fica agitado?
Parecia começo de discussão, até o garoto interromper o
diálogo.
– Olha lá a sorveteria. Por favor, mãe, compra um sorvete
para mim. Só um, prometo que é só esse. Vai, por favor.
– Peça pro seu pai, filho. Não é ele que tem todo o tempo do
mundo?
A ironia é rebatida pelo pai com um olhar fechado. Ele segura
firme nas mãos do filho e o leva para a sorveteria sem responder a questão. “Enquanto
vocês vão aí eu vou comprar os legumes”, falou a mãe enquanto já acelerava o
passo em direção às barracas, quase na avenida XV de Novembro.
O movimento na feira parecia crescer. Um conjunto de
barracas azuis, logo em frente à sorveteria, atraía a atenção de quase todos
que por ali passavam. Desde camisetas de times de futebol até brinquedos,
passando por acessórios de cozinha e bijuterias. Ali do lado, um rapaz fechava
negócio por dois relógios e em uma pequena banca laranja à frente uma senhora
demonstrava interesse por um conjunto de toalhas de mesa.
– Me vê dois sorvetes casquinhas com cobertura, por favor?
– Qual o sabor moço?
– Maracujá e chocolate. Os dois com cobertura de chocolate.
Mais cinco reais saem do bolso do pai. O menino pede para sentar-se
à mesa ao lado da recepção, porém o pai opta por dois assentos localizados na
parte externa do estabelecimento, na descida da Farmácia do Carlinhos.
Após uma noite fria de sábado, o sol aparece sem qualquer
nuvem no céu nogueirense. Feirantes e visitantes de sandálias e bermudas e o
parquinho cheio de crianças. Sim, o parquinho. Bem em frente à sorveteria. Logo
aquela sorveteria.
– Pai, vamos lá para o parquinho.
– Mas filho, nem terminamos o sorvete.
– Vamos pai, do lado do balanço tem um banquinho. A gente
senta lá e depois você me empurra.
A animação do garoto venceu. Desta vez, era o menino que
puxava o pai até o local em meio ao movimento da feira. O sorvete ainda estava
na metade.
“Peguei”, “agora é você”. O barulho deixava a criança
ansiosa. Enquanto o pai era só sorrisos. Parecia se colocar ali, querer voltar
a infância. Por alguns instantes se esqueceu de que tinha um sorvete em suas
mãos.
– Papai, tá pingando em sua mão.
– Putz, nem reparei. E agora? Fica aqui no balanço que eu
vou pegar um pano ali e já volto.
– Tá.
Timidamente, a criança senta em um dos três bancos do
balanço. Segura nas grades de ferro que sustentam a estrutura e projeta seu
corpo para a frente e para trás. Um pedaço do sorvete cai sobre sua camiseta.
Ele nem repara.
A demora para limpar as mãos fez com que perdesse o começo
da brincadeira do filho. Quando retornou ao parquinho, o pai encontrou o filho
correndo atrás de outras crianças ao redor do escorregador. Decidiu comprar uma
cerveja na barraca ao lado e assistir a cena de “camarote”.
– Vai filho, desce. Papai tá aqui olhando.
– Saca só essa aqui.
Após cerca de quinze minutos, o filho correu em direção ao
balanço e convidou o pai.
– Vem pai, me empurra.
– Tá, vai lá.
A cena lembra o filme “À Procura pela Felicidade”. Naquele
instante somente pai e filho pareciam existir em meio às centenas de pessoas
circulando apressadas na estreita via da feira. O barulho de feirantes citando
itens e preços para atrair os consumidores tinha ficado para trás. A cada
empurrada no balanço, o pai parecia se esquecer de alguma preocupação ou
problema. Cada um era exterminado naqueles segundos. A criança olhava fixamente
para o pai e segurava forte na grade.
– Mais alto, papai. Mais alto.
– Tá, mas só até sua mãe chegar. Você sabe que ela não deixa
você subir muito com o balanço.
Enquanto ainda recitava a última sílaba da palavra balanço.
Sua esposa apareceu com mais duas sacolas. A feira estava completa.
– Pronto, terminei. Agora vamos que meus pais tão chegando.
Pera aí, que mancha é essa aí na sua calça?
O rosto moreno do pai ficou pálido. “Xi, a camiseta nova do
moleque”, pensava. O olhar da mãe já dizia tudo. “A gente se acerta em casa”.
Enquanto caminhavam para o carro uma última parada. Desta
vez, o filho avistou uma camiseta do
Corinthians pendurada em uma imensa
barraca de toldo azul pouco depois do parque.
– Olha papai, a camisa do Corinthians.
– É filhão. O Timão. E como se canta a música?
– Aqui tem um bando de louco. Louco por ti, Corinthians.
– Tá ótimo filho, quer uma para você?
– Quero.
Apesar da pressa, a mãe resolve não interferir desta vez.
Apenas observa o pai comprando uma camiseta infantil do clube para o filho. Ela
esboça um sorriso. No fundo, se orgulha do amor e do carinho do pai pela
criança. Pouco depois alcançam o automóvel, já fora da área da feira. Os
alimentos e objetos comprados seguem para o porta-malas. A mãe pega o celular e
telefone para seus pais. O pai liga o motor do carro e começa a dar a ré. Já o
filho encosta o rosto no vidro de trás e observa, com alguma dificuldade, o
movimento de pessoas entre as barracas, a barraca do
pastel, ainda lotada de gente, e o parque – o palco da diversão daquele
domingo.
– Papai, semana que vem você promete me trazer na feira?
– Sim, filho. Eu prometo.
Por Guilherme Cavalcante
Fazer o Trabalho de Conclusão de Curso
(TCC) não é uma tarefa das mais fáceis mesmo quando se tem um vasto conteúdo a
ser estudado. Agora, mergulhar em um tema do qual não existem bibliografias
específicas para o assunto escolhido, pede um pouco mais de responsabilidade.
Essa foi a vontade dos alunos Bruno Younes e Érika Preissel, formandos do curso
de licenciatura em História do Centro Universitário Adventista de São Paulo
(Unasp), campus de Engenheiro Coelho. Eles tiveram embasamento bibliográfico,
mas resolveram dar uma abordagem diferenciada ao tema. Os dois se aventuraram
em um assunto pouco difundido por escritores e escolheram a pauta “Catolicismo
Negro no Brasil colonial” para encerrarem a graduação.
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| Santos negros foram criados para atrair escravos ao catolicismo. Foto: Arquivo pessoal. |
A disciplina “Brasil Colonial” foi o
incentivo para o aprofundamento do tema. A partir de então, os alunos buscaram
referências e especificaram o assunto com o objetivo de se aprofundar na
questão da participação do negro na religião. A
Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, em Mariana, Minas Gerais, foi o
foco do estudo. Os brancos queriam que os negros, à época escravos, se sentissem
como parte da sociedade, mas sem perder a cultura, e, por isso, utilizavam de
alguns métodos para atraí-los. Para
isso, alguns santos negros foram criados para incentivá-los na participação da
religião e, com o fervor demonstrado, os brancos também se interessaram pelo
catolicismo.
O estudo levou 14 meses
para ser concluído. O fato de não encontrarem a bibliografia específica para o
tema deixou os alunos com receio, mas a visita à cidade de Mariana conseguiu
esclarecer dúvidas e dar a certeza de que estavam tendo a abordagem correta.
Mestre em Memória Social e Patrimônio Cultural, a orientadora do TCC, Janaina Xavier, instruiu os dois
alunos no aprofundamento do assunto. Ela afirma que a pesquisa fez uma
contribuição para a revisão da história do negro no Brasil. “A pesquisa
realizada traz uma temática atual, pertinente e que colabora para uma nova
historiografia brasileira, mais inclusiva e de acordo com a realidade,
dando voz para os diferentes atores dessa história, sem privilegiar nenhum
grupo em específico”, valoriza Janaina.
Na apresentação do trabalho final, a banca,
formada por professores do curso, elogiou o estudo, a forma como foi escrito e
o embasamento dado. Pela sugestão dos avaliadores, o material será publicado
pela Imprensa Universitária adventista (Unaspress).
Por Karine Dias
Jovens de Vila Olímpia (SP), na maioria universitários, criaram um
projeto que tem intrigado e ajudado muitas pessoas que passam diariamente pela avenida
Paulista no centro da cidade. Chamado de "A gente cuida", e com slogan "porque Ele fez a gente
cuida", o projeto tem como objetivo “cuidar e amar” as pessoas da capital
paulista, mostrando a importância de tratar a todos com carinho.
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| Jovem na avenida Paulista ergue cartaz convidativo para ouvir pessoas. Foto: Arquivo pessoal. |
As ações desenvolvidas pelos jovens são várias: ajuda às pessoas necessitadas,
distribuição de água na porta de baladas com informativo sobre a importância da
mesma e etc. Eles pretendem estender a iniciativa pela América Latina e, em breve,
na região de Campinas.
Dentre as atividades, o projeto "Desabafe", especificamente,
surgiu no coração de uma das jovens do grupo que tinha o interesse de
"experimentar" a ajuda humanitária sem pensar em receber nada em
troca. “Foi uma ideia meio maluca a princípio, mas quando fomos colocar na
prática vimos que era algo de Deus”, conta a garota que não quis se
identificar.
A ideia consiste em se sentar na avenida Paulista e convidar
as pessoas, por meio de cartazes, a desabafarem. Durante a conversa, os jovens participantes
do projeto querem apenas uma coisa: demonstrar real interesse pela necessidade
de quem desabafa.
Em geral, os participantes já conversaram com casais que estavam em
crise, pessoas que se sentiam sozinhas, pessoas que apenas queriam contar uma
novidade para alguém e homossexuais que se tornaram amigos do projeto. O grupo
já fez três edições e conversaram diretamente com mais de 200 pessoas.
Um dos integrantes que está à frente da iniciativa compara o projeto com
uma revolução. “Esse é nosso objetivo, uma revolução de amor em nossa cidade. Porque
Deus nos amou, nós amamos os outros, e os outros amarão outros e assim por
diante”, explica o estudante Junior Melito.
Algumas pessoas que
perambulam pela Paulista, às vezes, não se aproximam por preconceito achando
que é algo de caráter religioso, mas os jovens pontuam o contrário. “Com isso fazemos amizade e envolvemos essas pessoas para que elas
ajudem os outros também, só divulgamos o exemplo de Cristo, e até ateus viram
em nós um Jesus que eles não conheciam”, esclarece o voluntário Victor Bejota.
Por Vinícius Serain
A Viação Bonavita (VB) Transportes, é uma tradicional
companhia de viagens da região de Campinas e São Paulo. Atuam no setor em
linhas rodoviárias, urbanas e suburbanas. Mesmo contando
com aproximadamente 3,6 mil veículos espalhados pelas regiões de Campinas,
Indaiatuba, Registro, Peruíbe, entre outras, vêm decepcionando
moradores da região, tanto com falta de ônibus, quanto com falta de infraestrutura.
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| Superlotação é um dos problemas da VB. Foto: Vinícius Serain. |
O principal problema diagnosticado pelos passageiros é
em função da falta de carros em horários não convencionais (fora do horário de
pico), entre às 14h e às 17h. Principalmente para quem volta de Campinas
para cidades vizinhas como Cosmópolis e Artur Nogueira.
Muitas empregadas domésticas precisam do transporte
público justamente neste horário, e têm uma longa espera para voltarem às casas.
“Temos dois lares pra cuidar: o nosso e dos patrões”, desabafa a empregada
doméstica Inês Serrano. ”Esperar mais de uma hora pela condução já é triste,
ainda mais com ar condicionado quebrado, ou com buracos que permitem entrada de
chuva!”
As reclamações quanto a infraestrutura também são
extensas. “O transporte Bonavita está um caos! Ônibus quebrados,
motoristas mal educados, atrasos constantes e até mudança de rota.” A denúncia
é de uma internauta que fez sua reclamação no Fala Cidadão do
portal Quanta Notícia.
Outra senhora que não quis se identificar, se
manifesta constantemente no número telefônico fornecido pela empresa para
reclamações. Cansada de tanto descaso, também enviou fotos para vários canais
de comunicação tiradas dos ônibus que fazem a linha 600 (Indaiatuba/Campinas) –
motivo de tantas reclamações.
Em uma das imagens a usuária destaca a lixeira no
interior do ônibus que, em uma das viagens, caiu repentinamente quase atingindo um idoso que
estava em pé no interior do veículo. “Não havia lugar para ele se sentar devido
à superlotação. O problema é antigo, a passagem é cara e as autoridades locais
precisam tomar providências urgentes!”
Fundada em 1927, a Viação Bonavita, também passou por denuncias de
corrupção. Em 2011, houve uma paralisação de cerca de 800 trabalhadores da VB, totalizando 258
veículos parados. O protesto aconteceu devido à demissão de três cobradores
que foram pegos em flagrante por um fiscal da Empresa Municipal de
Desenvolvimento de Campinas (Emdec).
Os cobradores faziam o chamado “cabrito”: deixavam os usuários que já tinham
pagado na parte da frente do ônibus sem passar pela catraca. O dinheiro
recebido era guardado pelos próprios cobradores que não devolviam para o caixa.
Acidente
O recente acidente do dia 19 de setembro
deixou 33 pessoas feridas em Campinas. Um motorista de ônibus da empresa VB,
que teria sido fechado por um veículo de passeio, perdeu o controle e bateu
contra um muro. Das vítimas, duas foram levadas em estado instável para o
Hospital da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). O veículo estava
superlotado.
As Empresas Metropolitanas de
Transportes Urbanos (EMTU) são entidades criadas para gerir o
planejamento e gerenciamento de transportes públicos. A Região Metropolitana de
Campinas (RMC) - vertente da EMTU - tem sofrido veementes críticas através do
código de defesa ao consumidor e até o momento tem se ausentado perante esses
manifestos.
Por Vinícius Serain
Do lado esquerdo da Rua Minas Gerais, no município de Engenheiro
Coelho (SP), mora Maria Nunes de Oliveira, vendedora de comida caseira. Aos 62
anos, lê e escreve com dificuldade, porém pela prática contínua de vendas em
seu trabalho, já consegue realizar cálculos matemáticos simples.
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| Dona María é parte dos 27% de analfabetos funcionais existentes no país. Foto: Katherine Changanaqui. |
Dona Maria, como é conhecida pelos vizinhos, estudou até a
segunda série no programa de Educação para o Idoso, promovido pelo município.
Orgulhosa, comenta que aprendeu a escrever seu nome e expressa o entusiasmo por
voltar às aulas que haviam sido paralisadas, por falta de professores, há dois
meses.
Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística
(IBGE), 20,3% da população tinha, há dois anos, uma história similar à de dona
Maria. Entretanto, esse número aumentou no ano passado para 27%, de acordo com
o Indicador de Analfabetismo Funcional (Inaf), divulgado pelo Instituto Paulo
Montenegro e pela ONG Ação Educativa.
O indicador também revela que na Região Sudeste 20% da população
é composta de analfabetos funcionais, sendo que 48% correspondem ao nível
básico e somente 31% são alfabetos plenos.
Roberto Catelli, coordenador do Programa de Educação de Jovens e Adultos da
ONG Ação Educativa, afirma que no mundo letrado de hoje é quase impossível falar de
uma pessoa absolutamente analfabeta. Segundo o Inaf, alguém é considerado
analfabeto funcional quando, apesar de saber ler e escrever frases
simples, não possui as habilidades necessárias para satisfazer as demandas do
seu dia a dia e se desenvolver pessoal e profissionalmente. “O conceito de
analfabetismo mudou. Em 1958, analfabeto era um indivíduo que não conseguia ler
ou escrever; hoje se adota o conceito de analfabetismo funcional”, afirma o Instituto
Paulo Montenegro por meio de sua assessoria.
De acordo com a definição acima, para ser considerada analfabeta
funcional, uma pessoa deve necessariamente haver cursado até a terceira série do
ensino fundamental e ter entre 15 e 64 anos de idade, mas possuir habilidades de
leitura, escrita e matemática apenas rudimentares. Trata-se de uma situação
extremamente limitadora, pois essas habilidades são importantes para a vida de
estudos e inclusão no mercado de trabalho.
Apesar da diminuição do índice de analfabetismo funcional
absoluto nos últimos anos, a situação do país ainda é crítica. Só na América
Latina existem 25 milhões de analfabetos, dos quais 13 milhões são brasileiros.
O censo de 2010 aponta que existem 584 mil analfabetos absolutos em São Paulo.
Catelli sublinha que desde o ano 2000 tem havido reduções visíveis nos níveis
de analfabetismo. No entanto, ele acredita ser necessária a urgente criação de
políticas educacionais e “estratégias inteligentes para reduzir de maneira
acelerada um número que ainda é muito expressivo”.
Na
Região Metropolitana de Campinas (RMC), o mapa de analfabetismo
do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais
(Inep) elaborado no ano 2003, revelou que 299,3 mil pessoas são analfabetas
funcionais. O estudo revelou que, dentre as cidades que integram a região, o
município que tinha o índice mais alto era Santo Antônio de Posse, com 29,3% de
analfabetos funcionais e 11,4% analfabetos absolutos. Engenheiro Coelho possuía
27,9% funcionais e 12,1% absolutos. Artur Nogueira, 23,3% funcionais e 9,1%
absolutos. Holambra, 22,6% funcionais e 8,1% absolutos.
Dez anos depois
“No passado eu
tentei ir à escola, mas pelas dificuldades nos horários desisti. Hoje, 30 anos
depois, aprendi a ler e escrever com o programa”, conta Maria Nunes (a mesma
dona Maria do início desta reportagem). Ela declara que o projeto da prefeitura
mudou a sua vida.
As estatísticas do IBGE
do ano 2010, segundo a Pesquisa Nacional de Domicílios (Pnad), mostravam as
seguintes porcentagens em relação ao analfabetismo absoluto na RMC: Santo Antônio
de Posse, 6,45%; Engenheiro Coelho, 7,12%; Holambra, 4,51%, e Artur Nogueira, 4,59%.
Segundo os resultados, a cidade com maior índice de analfabetismo absoluto era
Engenheiro Coelho.
Frente os altos níveis
de analfabetismo, nas 19 cidades da RMC, a secretaria de Educação do governo do
Estado de São Paulo comprometeu-se a realizar diversos projetos para diminuir
esses índices. Desde 2003, foram implementadas pelo Ministério de Educação diversas
alternativas para eliminar o analfabetismo no Brasil, tais como o projeto
Educação de Jovens e Adultos (EJA) e o Pacto Nacional de Alfabetização na Idade
Certa, que inclui parcerias com faculdades privadas na preparação dos docentes
como futuros alfabetizadores.
No ano de 2012, o
Estado de São Paulo contava com 214,3 mil matriculados no EJA. Recentemente, o governo reduziu para 7 anos a idade
em que a criança deve estar alfabetizada, meta a ser conferida na próxima prova
do Sistema de Avaliação de Rendimento Escolar do Estado, a qual será realizada nos dias 26 e 27
de novembro.
Alguns
dos municípios da RMC que apresentaram alto índice na pesquisa de 2003 também aderiram
aos projetos. É o caso de Engenheiro Coelho. A secretária de Educação, Cleide
Aparecida de Oliveira, menciona que o município já participa dos projetos em
busca de garantir alfabetização correta a crianças da 2ª série, jovens e
adultos. “Estamos investindo no EJA para que os alunos que trabalham durante o dia tenham uma boa alimentação
e horário flexível para que concluam seus estudos no horário noturno”, acrescenta.
A realidade de
outras cidades, porém, ainda é confusa. A reportagem entrou em contato com as
Secretarias de Educação de Holambra e Santo Antônio de Posse. De acordo com as
informações, ambos os municípios ainda não elaboraram planos que façam uma
avaliação do seu passado educacional com o objetivo de projetar alternativas de
melhora para o futuro. A reportagem também entrou em contato com a prefeitura
de Artur Nogueira, por meio de sua assessoria de imprensa, mas não obteve
resposta.
Movimentos
nacionais como o Todos pela Educação tentam combater a realidade do
analfabetismo funcional com o objetivo de eliminar o problema até o ano 2022.
No entanto, para instituições como a Ação Educativa, colaboradoras do Inaf,
diminuir totalmente o analfabetismo é impossível por tratar-se de um problema
social bastante amplo, que está relacionado à desigualdade e vai além de
questões educacionais.
Por Katherine Changanaqui
A elevação do preço de imóveis em determinados bairros é uma tendência comum nas cidades brasileiras. Instalação de hospitais, shoppings, universidades e supermercados são os motivadores para que casas e apartamentos passem a valer mais. Um exemplo disso é o bairro Itaquera, na zona leste de São Paulo. No local está sendo construído uma das maiores arenas de futebol do Brasil para a Copa do Mundo Fifa 2014. Segundo moradores da área, um apartamento de dois quartos era vendido, antes do início das obras do estádio, por no máximo R$ 80 mil. Hoje, vendas na mesma localidade não são feitas por menos de R$ 200 mil.
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| Imagem Creative Commons. |
Especulação imobiliária é o nome dado à prática de se adquirir um imóvel em um determinado bairro com objetivo de vendê-lo, depois de um determinado tempo, com o preço mais elevado. Segundo o arquiteto Renato Saboya a especulação imobiliária se torna um grave problema para as cidades por gerar desarmonia no tecido urbano. “Os bairros mais ‘especulados’ se tornam mais urbanizados que os outros, fazendo com que a cidade tenha áreas bem estruturadas e outras sem nem saneamento básico”, afirma. “O próprio governo cai na tendência de cuidar mais dos bairros que tem intensa especulação imobiliária.”
No entanto, esse não é o caso do bairro Cidade Universitária, em Engenheiro Coelho. O local tem a maior especulação imobiliária do município por se localizar ao lado do único campus universitário da cidade, o Centro Universitário Adventista de São Paulo (Unasp). Todos os anos vários estudantes chegam ao bairro, e aos condomínios próximos a ele, à procura de residências para morar no período letivo. Com o passar dos anos, a fama de ser um bairro tranquilo e bem próximo ao Unasp chamou a atenção de especuladores imobiliários.
De acordo com um aluno que mora no Universitário (como o bairro é comumente conhecido), o valor cobrado em um aluguel de uma kit net ou edícula não custa menos que R$ 400. O mesmo valor que um estudante de São Paulo paga por uma residência próxima à Universidade Mackenzie, a poucas quadras de uma estação do metrô, por exemplo. Preço com o qual é também é possível pagar, dividindo espaço com mais duas pessoas, um apartamento de dois quartos na rua Consolação – que fica no centro de São Paulo e próximo à avenida Paulista.
Segundo a estudante de jornalismo do Unasp Karine Dias, que mora no bairro Universitário e paga R$ 380 pelo aluguel, é muito difícil encontrar locais para morar que sejam abaixo desse preço. “O meu apartamento é o mais barato que tem por aqui. Mas os valores geralmente estão na faixa dos R$ 450”, comenta.
Os abusos nos preços não se restringem apenas ao bairro Universitário. Nos três condomínios que circundam o campus do Unasp, os abusos nos preços continuam. No condomínio mais antigo da cidade, o Lagoa Bonita, onde habita boa parte da classe alta de Engenheiro Coelho, só é possível morar em uma edícula quem desembolsa mensalmente algo em torno de R$ 400. O condomínio atrai alguns alunos pela proximidade com o Centro Universitário.
Para o aluno Rodolfo Sousa, morar no Universitário é vantajoso, já que ele consegue pagar alimentação, internet e residência mobiliada com cerca de R$ 400. No entanto, Sousa denuncia que o mesmo valor é cobrado no condomínio fechado, numa taxa que não garante as mesmas vantagens. “Parece que no Lagoa eles querem cobrar pelo status de morar lá dentro. Enquanto o que eu pago cobre quase todas as minhas despesas, lá é cobrado em torno de R$ 470 só com energia e água.”
Por Douglas Pessoa
De uma infância pobre e sem perspectivas a uma vida de
garra, fé, perseverança e sucesso. Essa é a história da professora aposentada
Elza Oliveira. Nascida na cidade de Juruaia, Minas Gerais, a educadora e seus 11
irmãos passaram por dificuldades financeiras e se adaptaram desde muito cedo a
ajudar os pais nos serviços do campo. Acostumada com as provações, a família
nunca perdeu o brilho, a esperança, a união e os princípios religiosos.
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| Ela Oliveira. Foto: Karine Dias. |
O pai, sempre confiante e motivador, encorajou Elza, que
havia cursado até a 3º série do primário, a realizar o sonho de um dia ser uma
professora. A jovem, de apenas 15 anos, acreditou no seu potencial e, com a
ajuda do município, reativou duas escolas na zona rural e passou a dar aulas
tanto para crianças quanto para adultos nos três turnos. Com a remuneração que
recebia pelas aulas, a professora auxiliava integralmente a família.
Com vontade de crescer e concretizar o sonho, Elza deixou a
família e foi concluir seus estudos em um internato cristão no Rio de Janeiro.
Para custear as despesas do ensino, a jovem trabalhava em tempo integral na
instituição, dava aulas e tirava tempo para estudar e ter as melhores notas da
classe. Nas férias, ela saia com uma equipe de meninas para vender de porta em
porta geléia real. Com o êxito das vendas, a mineira conseguiu, além de pagar
seus estudos, enviar dinheiro aos pais e convidar a irmã para estudar na mesma
escola.
Elza se formou em matemática. Casou com um professor de
educação física e começaram a dar aulas no Rio de Janeiro e pelo interior de
São Paulo. Quando se aposentaram, eles não tinham casa própria. Com um pequeno
investimento, no ano 2000, a professora comprou um terreno na Cidade
Universitária de Engenheiro Coelho. Na época, o local era quase que abandonado.
Não havia luzes na rua, asfalto e a falta de água era constante. Com pensamento
empreendedor, construiu, além da casa para morar, uma casa de aluguel. Com o
dinheiro que recebia do inquilino, construiu outras casas, investiu em outros
terrenos e não parou mais.
A professora participou ativamente do crescimento do bairro.
Fez parte, durante anos, da administração do local através da associação de
moradores e ainda contribui com as melhoras, mas não de maneira formal como
antes. Mesmo com uma vida estável, a aposentada diz que não quer parar. Para
ela, se envolver com as pessoas é que a faz se sentir útil. “Eu gosto de estar
em contato com outros. Gosto de conversar e ir de um lado para o outro. Isso me
faz feliz”, revela.
Por Karine Dias
Estudo realizado pelo Instituto Paulo
Montenegro e o Indicador de Analfabetismo Funcional (Inaf) para o ano 2013
revela que 30% da população de Campinas é analfabeta funcional. Os resultados
foram expostos em evento da Federação das
Entidades Assistenciais de Campinas (Feac) pela comemoração da 4ª Semana
de Educação do Município no dia 5 de novembro.
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| Evento da Feac. Foto: Katherine Changanaquí. |
Rose Rosendo, gerente de atendimento e
planejamento do Ibope Inteligência acredita que a situação em Campinas é muito
similar a do cenário nacional. No entanto, por ser uma cidade grande e de bom
nível econômico na região Sudeste, os resultados não foram os ideais. “Campinas
é uma cidade do interior, mas é uma cidade rica. Esperava-se que o desempenho
da população fosse melhor”, admite.
A porcentagem de analfabetismo
funcional foi produto da soma do percentual de 3% da população considerada totalmente
analfabeta e 27% da população com alfabetismo rudimentar, ou seja, pessoas que
conseguem ler textos simples e realizar operações básicas. Nas definições do
Instituto Paulo Montenegro uma pessoa que não está funcionalmente alfabetizada
pode ou não realizar atividades do cotidiano, como fazer um cálculo ou receber
um troco, mas nem sempre consegue interpretar textos e números. Eles criam uma dependência
de outras pessoas para realizar atividades do dia a dia, o que complica mais a
situação.
Entre
os principais problemas que afetam o sistema educativo da cidade estão a
infraestrutura das escolas e a falta de preparação adequada dos professores
como alfabetizadores. Maria Helena Guimarães Castro, especialista em avaliação
educacional, explica que instalações adequadas para o ensino é um fator que
influencia no processo de aprendizagem. “Temos projetos de educação e escolas,
mas nossos alunos não estão interessados em aprender”, afirma.
A especialista e socióloga também
manifesta a sua preocupação com a qualidade das pesquisas para detectar o nível
de alfabetização. Ela enfatiza que o mercado de trabalho está cada dia mais
exigente e que os testes para identificar se somos capazes de ler ou não, refletem
com pouca clareza se os estudantes estão prontos para enfrentar o mundo
profissional. Para ela, novas pesquisas e melhorias na qualidade dos cursos
ofertados são urgentes e necessárias para preparar os estudantes frente às mudanças
na educação.
Maria Inês Fini, consultora da Fundação
Feac para o Compromisso Campinas pela Educação, concorda com Maria Helena. Ela
afirma em evento da Feac que é possível perceber uma geração talentosa de jovens
que estão sendo educados da maneira errada para se desenvolver na sociedade. Em
consequência, o processo de alfabetização sofre um estagnamento do ensino médio
ao superior. “Estudantes são enviados as universidade sem ter um nível de
alfabetização e interpretação de dados adequado. Essa é uma situação crítica e
preocupante”, desabafa.
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| Evento da Feac. Foco: Katherine Changanaquí. |
No encontro também foi apresentada uma
análise dos estudantes inscritos no Exame Nacional de Ensino Médio (Enem) deste
ano. O professor Dalton Francisco de Andrade e o pesquisador Adriano Ferreti
Borgatto foram os autores do estudo. Uma das conclusões apresentadas é a de que
o desempenho dos estudantes em Campinas é superior aos níveis estaduais da região Sudeste. Segundo Dalton, estes dados
nem sempre refletem a realidade dos estudantes em termos de desenvolvimento
laboral no futuro.
Nas opiniões de Andrade, Maria Inês e os
outros participantes do projeto Campinas Compromisso pela Educação a criação de
novos testes para o análise dos estudantes e o maior investimento em educação é
urgente. “Acreditamos que a infraestrutura e qualidade de ensino precisam ser
as melhores. E deixamos de perceber que aquilo que é considerado ‘melhor’ é o
necessário”, declara Andrade.
Nas conclusões do estudo, considerou-se
a necessidade de impulsionar o processo de alfabetização em busca da formação
de uma população apta para conseguir um emprego e uma sociedade democrática. “Uma
pessoa que precisa de outra para enxergar e entender o mundo não tem livre
escolha e isso não é democracia”, acrescenta Maria Inês.
Além do município
No ano 2003 o mapa do analfabetismo
funcional do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais realizado
na Região Metropolitana de Campinas (RMC) indicava que Campinas era o município
com o menor índice de analfabetismo funcional (14,5%).
Já Santo Antonio de Posse tinha o maior índice (29,3%). Outras cidades com alto
nível eram Artur Nogueira (23,3%), Engenheiro Coelho (27,9%) e Holambra
(22,6%).
Sete anos depois as
estatísticas do IBGE do ano 2010, segundo a Pesquisa Nacional de Domicílios (PNAD),
mostravam as seguintes porcentagens em relação ao analfabetismo absoluto na
RMC: Santo Antônio de Posse, 6,45%; Engenheiro Coelho, 7,12%; Holambra, 4,51%,
e Artur Nogueira, 4,59%.
Frente a esta realidade
diversos programas criados pelos governos foram postos em prática. Projetos
como Todos pela Educação estabeleceram objetivos para erradicar o analfabetismo
até o ano 2022. Os municípios de RMC como Engenheiro Coelho e Campinas
atualmente fazem parte destes processos.
No entanto os dados atuais expressam
uma realidade diferente. Rose Rosendo, do Ibopw, assume que é impossível
comparar os dados do passado com os atuais por se falar de contextos
educacionais diferentes. No Brasil o nível de analfabetismo funcional é de 27%.
Já em Campinas é de 30%. Para os especialistas da educação, a cidade de
Campinas reflete a realidade nacional e, portanto, medidas para sanar este
desafio educacional no país serão refletidas no nível de analfabetismo
funcional da cidade.
À direita da Avenida Consolação, na Amaral Gurgel,
estão 20 gigantes de seis metros que tomaram o elevado Costa e Silva em outubro. Descoloridos, enfileirados
e sérios. Se trata da exposição Giganto, da fotógrafa gaúcha Raquel
Brust, parte do Festival de Fotografia PhotoEspaña.br. A mostra conta com
retratos de moradores do local e pretende criar interação entre obra e público.
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| Imagem da DJ Sandra Gabby na exposição Giganto. Foto: Isadora Stentzler. |
“Esse me é familiar”, comenta o comerciante Alan
Janes, 63, apontando para a primeira fotografia da exposição abaixo do elevado.
“Mas agora não lembro quem é. Se reparar mais a partir de hoje acho que o
reconheço.”
No bar, ninguém sabia o paradeiro. No salão de
beleza, também não. A mulher de saia que visitava o local no sábado
(26) tampouco. Para muitos dos moradores vizinhos do elevado Costa e
Silva, também conhecido como Minhocão, aqueles retratos são mitos da região. Um
fenômeno, porém, que não acontece com a mulher exposta na oitava pilastra.
“Se eu conheço ela? Conheço sim, é do teatro”,
conta a moça da banca de revistas. A idosa de batom, blusa social listrada e
séria é freguesa no “Buteco no Tigrão”. “Às vezes almoça, às vezes só toma
café”, revela o atendente. O nome dessa giganto é Gabby. Sandra Gabby. Mas para
os amigos do Minhocão, é a Gabby do teatro. Uma atriz e DJ de 88 anos que dá
aulas de interpretação ao lado do elevado.
“Sou a DJ mais velha do Brasil”, se
orgulha. O amigo Marcelo Mendes, 40, e proprietário do teatro Paiol,
acrescenta: “Enquanto estou no quarto sono, ela está batendo perna por aí.”
Gabby já tocou em bares da região do Bixiga, Frei Caneca e na Augusta, ficando cerca
de sete horas mixando sons no
aparelho de DJ. “Uma mulher muito animada. Bem diferente daquela séria que
aparece na fotografia”, pontua Mendes.
A escolha pela carreira há três anos veio de duas maneiras. Uma pela decepção com o teatro atual e a outra por influência da irmã Thelma Lima, 83. “Eu nunca toquei em público”, conta a irmã. “Mas ela toca.”
A escolha pela carreira há três anos veio de duas maneiras. Uma pela decepção com o teatro atual e a outra por influência da irmã Thelma Lima, 83. “Eu nunca toquei em público”, conta a irmã. “Mas ela toca.”
Assista ensaio da DJ Sandra Gabby
Logo que o Giganto foi exposto, Mendes percebeu o
retrato da DJ e identificou que havia cola em excesso na fotografia dando a
impressão de baba. “Então peguei um pano e limpei”, descreve. O cuidado com a imagem representa o carinho
que ele e outros vizinhos sentem pela atriz.
Segundo a idealizadora do projeto, Raquel Brust, o
processo de escolha dos fotografados foi um trabalho de campo. O encontro com
Gabby, no entanto, foi acidental. “Estávamos procurando janelas para filmar o elevado e encontramos ela por
indicação do zelador do prédio. Muito simpática, logo estávamos em sua casa
ouvindo música”, relata.
Assim como a curiosa senhora de 88 anos, atriz, DJ,
viúva e que nunca quis ter filhos, outras 19 histórias curiosas também
permanecem expostas no elevado. “A cidade é um local que ninguém encara o
outro, evitamos os olhares”, explica Raquel. Mas agora no Minhocão, “os olhares
são vigilantes, críticos, te enfrentam”, e apresentam “vidas singulares cheia
de mistérios.”
O projeto Giganto ocupa todas as colunas de sustentação
do Elevado Costa e Silva, no trecho da Avenida Amaral Gurgel, e algumas colunas
do trecho da Avenida São João. Outras imagens do PhotoEspaña.br podem ser
vistas de 23 de outubro a 25 de janeiro no Sesc Consolação.
Por Isadora Stentzler










