Suspeita de fraude revela fragilidades do Enade

Mudanças no Enade causam uma
série de discussões sobre a
forma de avaliação dos alunos.
Foto: Léo Neves

“Nós temos de garantir que o exame do Enade não permita nenhum tipo de procedimento que não faça a legítima avaliação dos alunos.” Foi com esta frase que Aloizío Mercadante, ministro da Educação, iniciou o anúncio das mudanças, já para este ano, no Exame Nacional do Ensino Superior, o Enade. O anúncio do ministro causou uma série de discussões acerca da validade ou não da medida do governo. A principal mudança neste ano será a participação no exame dos alunos que estiverem no penúltimo semestre. Antes, só participavam os alunos ingressantes e os concluintes.

Porém, por trás das mudanças, está a tentativa de brecar as farsas na prova, especialmente das universidades particulares. O caso da suposta fraude da Unip no exame evidencia a necessidade de uma reflexão profunda, por parte do governo, do sistema de avaliação das Instituições de ensino superior do país.

No início do mês de março, o MEC recebeu uma denúncia de que a Universidade Paulista (Unip) fraudava as notas do exame do Enade, escolhendo os “bons” alunos e ocultando a nota dos alunos com baixo desempenho até o fim das inscrições para o exame. Dessa forma, a universidade aumentava seu índice geral e utilizava-o como instrumento de marketing.

O estudante Caio Souza, que cursa Gestão da Tecnologia da Informação na Unip de São José dos Campos, reforça a tese da fraude. “Todos os alunos podem comprovar essa fraude”, afirma. “Fomos reprovados, somente os três melhores da sala passaram de ano para fazer a prova.” A denúncia é de que a estratégia da universidade era realizar, no penúltimo período dos cursos, “amostras” do exame, e assim selecionar os melhores para o último período, quando é realizado o Enade. O restante dos alunos era reprovado. Dessa forma, as notas da instituição subiriam.

A suposta fraude é negada de maneira veemente pela universidade. A vice-reitora da Unip, Marília Ancona, garantiu não haver nenhuma irregularidade no exame. “Estamos tranquilos quanto às denúncias. Nosso trabalho é transparente”, defendeu através de nota oficial. 

Críticas à mudança
As universidades privadas, através do Fórum das Entidades Representativas do Ensino Superior Particular, criticaram a medida do MEC. O Fórum afirma que a medida não deveria ter sido feita em forma de portaria, e a mudança deveria ser realizada na própria legislação. "Essa é uma regra geral que as instituições de educação superior e toda a comunidade acadêmica incorporaram ao seu planejamento e gestão, confiando na segurança jurídica da medida”, explica a carta que foi encaminhada ao ministro Mercadante. Segundo o Fórum, as mudanças exigiriam um preparo maior das universidades para auxiliar os alunos, o que demandaria tempo, algo que não estaria sendo respeitado pela portaria feita pelo MEC.

O professor Afonso Cardoso, diretor acadêmico do Centro Universitário Adventista de São Paulo (Unasp), afirma que, apesar das boas intenções do Ministério da Educação, a qualidade da avaliação continuará a mesma. “A mudança não será na metodologia da prova, e sim na forma de aplicação, para evitar os riscos de fraudes. A qualidade do exame não vai se alterar”, explica. Outra queixa do professor é sobre a forma comparativa do exame. O sistema de comparação de desempenho entre alunos diferentes, em sua opinião, poderia ser mais eficaz. “O ideal seria comparar o desempenho do mesmo aluno nas duas avaliações, tanto na inicial, como ingressante, quanto na final, como concluinte.”

Bons exemplos não faltam
Exemplos como o das provas da OAB são a perspectiva ideal para o exame, segundo o professor Afonso. “Exames como o da OAB são os mais eficazes, pois aí todo o sistema estaria envolvido. Tanto a faculdade, na preparação do aluno para a entrada no mercado de trabalho, quanto o aluno, desejoso de entrar no mercado o mais rápido possível”, sugere. Por focar na preparação para o ingresso no mercado de trabalho como objetivo final, essa forma de avaliação é extremamente vantajosa. O Saec (Sistema de Avaliação de Engenharia Civil), realizado todo semestre pelo curso de Engenharia do Unasp, também é citado por Afonso como um exemplo. “O Saec é uma forma de revisão efetiva, pois suas provas, realizadas semestralmente, auxiliam o aluno a entender todo o assunto aprendido no semestre. Além, é claro, de o sistema ser cumulativo.”

Existem vários outros exemplos interessantes que podem servir para aprimorar o sistema brasileiro, como é o caso do sistema americano do Collegiate Learning Assessment  (CLA). O sistema é voluntário, e avalia estudantes ao longo do curso de graduação em relação às habilidades básicas de compreensão e crítica, de leitura e escrita. Ele serve como auxílio às instituições para aprimorar seus programas e currículos. A vantagem desse tipo de avaliação, assim como o Saec, é que, por cobrir todo o período de estudos – e não apenas o final, como o Enade –, ele impede que a universidade mascare o desempenho dos alunos. O sucesso desse sistema foi tamanho que a União Europeia (UE) resolveu adotá-lo como forma de avaliação geral.

Entendendo o Enade
O Exame Nacional do Ensino Superior chega este ano a sua oitava edição. O resultado da avaliação é expresso em valores que vão de 0 a 500, e faixas que vão de 1, pior conceito, a 5, conceito máximo. As instituições que recebem notas inferiores a 3 são proibidas de abrir novos cursos ou ampliar vagas até que melhorem o seu índice. Na sua última edição, menos de 2% das faculdades do país conseguiram o conceito máximo. A maioria, cerca de 40% das instituições de ensino superior, estava com o conceito mediano 3.
Fonte: Ministério da Educação
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Sobre a ABJ

A ABJ é a agência júnior de jornalismo do curso de Comunicação Social do Unasp - Centro Universitário Adventista de São Paulo.

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