No mês de março, quando diversos grupos e organizações de militares comemoram os 48 anos do golpe militar de 1964, movimentos sociais, organizações de trabalhadores, artistas e intelectuais promovem uma série de manifestações para protestar contra a iniciativa militar.
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| Aproximadamente 1 mil pessoas participaram da manifestação. Foto: Cley Medeiros. |
As manifestações denunciam a impunidade aos agentes da repressão, e apoiam a instalação da Comissão da Verdade exigindo a apuração e a punição dos crimes cometidos durante a Ditadura Militar.
Em São Paulo,só no domingo, dia 1º de abril,cerca de 1 mil manifestantes ocuparam as ruas em protesto à ditadura e a comemoração militar dos 48 anos do Golpe de 1964. A manifestação, organizada pelo Cordão da Mentira e apoiadores do projeto, passou por lugares históricos do regime e encerrou as 17h em frente ao antigo prédio do Departamento de Ordem Política Social (DOPS).
Segundo Lúcio Kefller, líder do movimento Cordão da Mentira, a manifestação, de teor pacífico, buscou levar esclarecimentos para a população e cobrar do Estado a criação da Comissão da Verdade que está engavetada no Congresso. “A marcha é uma espécie de grito dos excluídos. Enquanto os militares ainda comemoram, o que podemos chamar de chacina, o povo brasileiro ainda está desinformado sobre as atrocidades que se cometeram na ditadura.”
A concentração, que iniciou as 11h30 no cemitério da consolação, seguiu a partir das 14h em direção à rua Maria Antonia, onde em 1968, um estudante secundarista morreu após conflito de acadêmicos da Universidade Mackenzie e Universidade de São Paulo (USP). Entre os manifestantes também estavam pais de filhos assassinados vítimas de conflitos civis-militares, e que aproveitaram o protesto para pedir por justiça.“Nós estamos lutando porque os processos foram todos arquivados e não foi feito investigação nenhuma”, conta a aposentada Vera Lúcia Andrade de Freitas,de 60 anos, que teve seu filho, Mateus Freitas, 21, baleado em 2006 quando ia para a escola.
Sentimento também compartilhado por Anna Rodrigues, mãe de Paulo Rodrigues, assassinado pelo DOPS de São Paulo em 1965. Para ela, a manifestação soa como um lembrete a todos de que a ditadura não trouxe dignidade para os brasileiros. “Lembro do dia em que ele [Paulo Rodrigues] desapareceu. A polícia dizia que ele era um comunista burro, que não sabia ficar calado. Então eles o torturam e mataram. Isso não é divulgado, tudo por que os documentos não podem ser acessados. Isso é horrível, eu não ter a dignidade de mostrar para todos que o meu filho foi torturado e morto injustamente. A ditadura só trouxe desgraça para a moral do país”
Durante a marcha, os manifestantes levaram cartazes com imagens de desaparecidos na ditadura e outros foram vestidos de freiras, empresários e políticos, para representar classes que foram favorecidas com o regime. “Essas fantasias representam aqueles setores da sociedade que financiaram e se beneficiaram da ditadura. Inclusive os próprios militares, que foram chamadas pelos civis para realizarem o trabalho sujo”, esclarece Fabio Pimentel, 31.
O Cordão da Mentira ainda seguiu pelas ruas principais da avenida Higienópolis no prédio do TFP (Sociedade Brasileira de Defesa de Tradição, Família e Propriedade), rua Elevado Costa e Silva, Alameda Barão de Limeira e rua Helvétia, todas com ligações históricas ao período.
A marcha encerrou com salva de palmas em frente ao antigo prédio do DOPS, depois de uma série de homenagens aos desaparecidos e assassinados pelo regime militar.
Houve ainda outras manifestações no Rio de Janeiro, Campinas, Belo Horizonte, Curitba e Fortaleza.
Por: Cley Medeiros e Isadora Stentzler.


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