Chefe do Ministério da Cultura de SP reflete sobre o projeto de mudança nos Direitos Autorais

Por: Guilherme Cavalcante e Angélica Izquierdo

ENTREVISTA


Valério Bemfica. Foto: Divulgação
Durante a semana, foi divulgada a notícia de que o anteprojeto de lei que visa liberar as cópias de livros e materiais, e alterar a lei dos Direitos Autorais, está em análise na Casa Civil e deve, em breve, chegar ao Congresso Nacional. O anteprojeto tem causado uma grande polêmica, colocando em duas frentes diferentes, as editoras e os autores, e os estudantes. O processo de rediscussão da Lei dos Direitos Autorais iniciou-se ainda no primeiro mandato do Presidente Lula, liderado pelo Ministério da Cultura. Foi um longo processo, que culminou no encaminhamento, 8 anos depois, do anteprojeto à Casa Civil. Desde então, o APL, Anteprojeto de lei, retornou ao Ministério da Cultura e, finalmente, no dia 31 de outubro do ano passado, voltou a Casa Civil. E a previsão de chegada ao Congresso é para esse semestre. Incluído em todo este processo está o chefe da Representação do Ministério da Cultura para São Paulo, Valério Bemfica. Em entrevista exclusiva, Bemfica revela detalhes do anteprojeto de lei enviado pelo Ministério da Cultura, e reflete sobre a atual situação da Lei dos Direitos Autorais. Devido ao fato do projeto ainda estar recebendo alguns ajustes, Valério admitiu algumas limitações nas respostas.

ABJ - Valério, o anteprojeto de lei autoral que prevê a liberação de cópias de livros e materiais inteiros tem causado grande polêmica. De que maneira o senhor acredita que essa proposta atingiria positivamente a sociedade? Acredita que a aprovação da proposta influenciaria na melhora dos pífios índices de leitura do brasileiro?

Como disse anteriormente, não posso dizer até que ponto o projeto irá facilitar a cópia, tampouco prever se, no debate parlamentar, a proposta será aprovada. Mas não acredito que a liberação de cópias físicas em xerox ou impressão caseira influencie nos índices de leitura. E o motivo é econômico: a reprografia e a impressão caseira são processos mais caros do que a impressão industrial, caso contrário as próprias editoras não fariam seus livros assim. Ou seja, em geral xerocar um livro sai mais caro do que comprá-lo.
A questão me parece ser - e o Ministério da Cultura está muito empenhado na resolução do problema - a de ampliar o acesso aos livros, independente da possibilidade de cópia: aumento do número de bibliotecas, barateamento de livros, projetos de incentivo à leitura, apoio a Feiras e Salões do Livro, etc. Tais atividades e programas estão descritos em nossa página na internet, bem como na página da Fundação Biblioteca Nacional.
Além disso, iniciativas como o Portal Domínio Público, podem ser instrumentos poderosos na divulgação de materiais cujos direitos já não estejam mais protegidos. Acho que a nova geração cada vez mais fará uso de ferramentas eletrônicas, os e-books, e que podem existir mecanismos que permitam, ao mesmo tempo, aumentar a circulação e garantir a remuneração devida aos autores.

ABJ – Qual é a sua análise sobre a atual legislação dos direitos autorais?
Acho que ela já garante, se bem interpretada e aplicada, o exercício democrático do Direito Autoral no ambiente das novas tecnologias. Ela é mais recente do que as leis de vários países da Europa, por exemplo. Mas muitos defendem que algumas coisas devem ficar mais explícitas, pois a tecnologia avançou muito desde 1998. É este o principal motivo para a alteração ora em curso. De qualquer maneira temos que lembrar que a tecnologia evolui muito mais rapidamente do que a legislação. Ou seja, a Lei precisa ser o mais genérica possível, para que não precisemos revisá-la novamente dentro de três ou quatro anos, muita coisa nova será inventada até lá...

ABJ - Como o senhor acredita que a aprovação do anteprojeto afetaria a produção editorial no país?

Dependendo do que for aprovado no Congresso Nacional, a produção editorial pode ser afetada tanto para o bem quanto para o mal. A questão autoral é bastante complexa, envolvendo interesses econômicos poderosos e direitos sociais importantes. Como simples exemplo: um projeto que favorecesse demais ao setor comercial ou industrial acabaria por prejudicar o leitor e os autores. Um projeto que abolisse o Direito do Autor desestimularia a criação. Por isso o debate amplo, com toda a sociedade, é tão importante.

ABJ - O senhor poderia fornecer os pontos principais do anteprojeto de lei posto em consulta pelo Ministério?

Como disse anteriormente, ainda não tive acesso, até porque não foi finalizado, ao texto definitivo do APL, que encontra-se na Casa Civil. Não é possível, portanto, falar sobre artigos muito específicos.
Posso adiantar, entretanto, que as principais alterações giram em torno do Direito Autoral no ambiente virtual. Além disso, apresenta-se como grande novidade o reforço do papel do Estado, que pressupõe a visão da Cultura como algo estratégico para o país. Finalmente, destacaria também a disposição de criar um banco de dados público, que indique autorias, autorizações, obras em domínio público, etc.
Ressalto, mais uma vez, que a discussão será longa e complexa. Alguns itens da regulação dos Direitos Autorais estão abrigados no artigo 5º da constituição, ou seja, são Cláusula Pétrea, que não pode ser alterada nem por emenda constitucional, demandariam, para sua alteração, uma nova constituinte. Outros fazem parte de acordos internacionais dos quais o Brasil é signatário e que, por terem sido ratificados pelo Congresso Nacional, são equivalentes a artigos da Constituição. Além disso toda a mobilização dos diversos autores que você deve ter acompanhado durantes as consultas públicas continuará durante a tramitação do APL no Senado e na Câmara.
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Sobre a ABJ

A ABJ é a agência júnior de jornalismo do curso de Comunicação Social do Unasp - Centro Universitário Adventista de São Paulo.

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