Estudo realizado pelo Instituto Paulo
Montenegro e o Indicador de Analfabetismo Funcional (Inaf) para o ano 2013
revela que 30% da população de Campinas é analfabeta funcional. Os resultados
foram expostos em evento da Federação das
Entidades Assistenciais de Campinas (Feac) pela comemoração da 4ª Semana
de Educação do Município no dia 5 de novembro.
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Evento da Feac. Foto: Katherine Changanaquí. |
Rose Rosendo, gerente de atendimento e
planejamento do Ibope Inteligência acredita que a situação em Campinas é muito
similar a do cenário nacional. No entanto, por ser uma cidade grande e de bom
nível econômico na região Sudeste, os resultados não foram os ideais. “Campinas
é uma cidade do interior, mas é uma cidade rica. Esperava-se que o desempenho
da população fosse melhor”, admite.
A porcentagem de analfabetismo
funcional foi produto da soma do percentual de 3% da população considerada totalmente
analfabeta e 27% da população com alfabetismo rudimentar, ou seja, pessoas que
conseguem ler textos simples e realizar operações básicas. Nas definições do
Instituto Paulo Montenegro uma pessoa que não está funcionalmente alfabetizada
pode ou não realizar atividades do cotidiano, como fazer um cálculo ou receber
um troco, mas nem sempre consegue interpretar textos e números. Eles criam uma dependência
de outras pessoas para realizar atividades do dia a dia, o que complica mais a
situação.
Entre
os principais problemas que afetam o sistema educativo da cidade estão a
infraestrutura das escolas e a falta de preparação adequada dos professores
como alfabetizadores. Maria Helena Guimarães Castro, especialista em avaliação
educacional, explica que instalações adequadas para o ensino é um fator que
influencia no processo de aprendizagem. “Temos projetos de educação e escolas,
mas nossos alunos não estão interessados em aprender”, afirma.
A especialista e socióloga também
manifesta a sua preocupação com a qualidade das pesquisas para detectar o nível
de alfabetização. Ela enfatiza que o mercado de trabalho está cada dia mais
exigente e que os testes para identificar se somos capazes de ler ou não, refletem
com pouca clareza se os estudantes estão prontos para enfrentar o mundo
profissional. Para ela, novas pesquisas e melhorias na qualidade dos cursos
ofertados são urgentes e necessárias para preparar os estudantes frente às mudanças
na educação.
Maria Inês Fini, consultora da Fundação
Feac para o Compromisso Campinas pela Educação, concorda com Maria Helena. Ela
afirma em evento da Feac que é possível perceber uma geração talentosa de jovens
que estão sendo educados da maneira errada para se desenvolver na sociedade. Em
consequência, o processo de alfabetização sofre um estagnamento do ensino médio
ao superior. “Estudantes são enviados as universidade sem ter um nível de
alfabetização e interpretação de dados adequado. Essa é uma situação crítica e
preocupante”, desabafa.
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Evento da Feac. Foco: Katherine Changanaquí. |
No encontro também foi apresentada uma
análise dos estudantes inscritos no Exame Nacional de Ensino Médio (Enem) deste
ano. O professor Dalton Francisco de Andrade e o pesquisador Adriano Ferreti
Borgatto foram os autores do estudo. Uma das conclusões apresentadas é a de que
o desempenho dos estudantes em Campinas é superior aos níveis estaduais da região Sudeste. Segundo Dalton, estes dados
nem sempre refletem a realidade dos estudantes em termos de desenvolvimento
laboral no futuro.
Nas opiniões de Andrade, Maria Inês e os
outros participantes do projeto Campinas Compromisso pela Educação a criação de
novos testes para o análise dos estudantes e o maior investimento em educação é
urgente. “Acreditamos que a infraestrutura e qualidade de ensino precisam ser
as melhores. E deixamos de perceber que aquilo que é considerado ‘melhor’ é o
necessário”, declara Andrade.
Nas conclusões do estudo, considerou-se
a necessidade de impulsionar o processo de alfabetização em busca da formação
de uma população apta para conseguir um emprego e uma sociedade democrática. “Uma
pessoa que precisa de outra para enxergar e entender o mundo não tem livre
escolha e isso não é democracia”, acrescenta Maria Inês.
Além do município
No ano 2003 o mapa do analfabetismo
funcional do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais realizado
na Região Metropolitana de Campinas (RMC) indicava que Campinas era o município
com o menor índice de analfabetismo funcional (14,5%).
Já Santo Antonio de Posse tinha o maior índice (29,3%). Outras cidades com alto
nível eram Artur Nogueira (23,3%), Engenheiro Coelho (27,9%) e Holambra
(22,6%).
Sete anos depois as
estatísticas do IBGE do ano 2010, segundo a Pesquisa Nacional de Domicílios (PNAD),
mostravam as seguintes porcentagens em relação ao analfabetismo absoluto na
RMC: Santo Antônio de Posse, 6,45%; Engenheiro Coelho, 7,12%; Holambra, 4,51%,
e Artur Nogueira, 4,59%.
Frente a esta realidade
diversos programas criados pelos governos foram postos em prática. Projetos
como Todos pela Educação estabeleceram objetivos para erradicar o analfabetismo
até o ano 2022. Os municípios de RMC como Engenheiro Coelho e Campinas
atualmente fazem parte destes processos.
No entanto os dados atuais expressam
uma realidade diferente. Rose Rosendo, do Ibopw, assume que é impossível
comparar os dados do passado com os atuais por se falar de contextos
educacionais diferentes. No Brasil o nível de analfabetismo funcional é de 27%.
Já em Campinas é de 30%. Para os especialistas da educação, a cidade de
Campinas reflete a realidade nacional e, portanto, medidas para sanar este
desafio educacional no país serão refletidas no nível de analfabetismo
funcional da cidade.
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